Quando Murphy dorme - David Toutain, Paris



[minhas notas de janeiro de 2019, um ano antes da peste

publico agora]


Não esqueço de um amigo que sempre se queixou daquela coisa de TER que ser romântico em Veneza. É verdade. Acontece com cidades-clichê: “a linda”, “a romântica”, “a das mais belas praias”.


Já desisti de ter expectativas em Paris: "a deslumbrante arquitetonicamente", "a que tem alguns dos melhores museus do mundo", "a das praças mais lindas", "a filosófica", "das melhores livrarias" e, é claro, "a da excelente comida".


Tem que entrar em cena fingindo que tudo aquilo não está acontecendo.


Minha mãe foi bolsista em “Lutèce”. Lá, fez seus amigos, pesquisas e nos habituou a ir desde cedo. Já adulta, tive a alegria de fazer a primeira exportação dos produtos Bazzar para uma das melhores lojas de comida do Mundo: a Grande Épicerie, dentro do Bon Marché.


A alegria de ter de ir a trabalho é inenarrável, um privilégio.


Mas as decepções começam cedo, especialmente quando o bolso é raso e crédulo, e faz a aposta no primeiro bistrôzinho charmoso achando que vai comer lindamente. Aos 20 e poucos já percebia que a maior parte deles servia cenoura enlatada acompanhando um filé medíocre (exterminado no micro-ondas), com vinhos ruins e quentes, em copos ruins e sujos. E eu nem era chata, ainda.


É muita surra intercalada de “ah, mas é Paris!”, aquele sopro na ferida.


Felizmente fama não se ganha à tôa, e tem o dia da revolta do clichê, que tudo entrega. É o dia do “tem estrela Michelin e a cozinha é impecável mesmo”, do ambiente ser melhor quer a expectativa, do serviço te deixar à vontade, do vinho lhe fazer chorar e... arrá!... de ser seu aniversário, em Paris.


Assim foi no David Toutain.


Pra começar, não há pompa, há elegância, o que é bem diferente. Houve ainda uma sequência de pratos possível, que não me fez hibernar por 6 meses. Adorei os móveis, os dois andares, os tampos de mesa e o tempo das coisas.


Houve delicadezas inesquecíveis como o simples tartare de beterraba com amora preta, cebola roxa e hibiscos, de toque defumado; a raiz de salsifis com gostinho que lembra milho e seu creme de chocolate branco; chocolate, aliás, que também veio com o caviar, batata crocante e avelãs em combinação inesperada e excelente. Fecho os olhos ao lembrar do untuoso ouriço com cebolas e batatas; ou ainda da couve de Bruxelas casada com a folha de um pinheiro chamado Douglas, canadense; e o que dizer da codorna com raiz de pastinaca, cogumelos chanterelle e nectarina? Nas sobremesas, um caramelo delicioso com trigo sarraceno e alga me faz querer voltar.


Estive lá em dezembro último, quando a casa tinha uma só estrela Michelin.

Acaba de ganhar a segunda.

Que brilhe!


DAVID TOUTAIN

davidtoutain.com



beterraba com amora preta, cebola roxa 
e hibisco, com leve toque defumado
houve prato de caviar e trufa no menu, 
mas troco por essas coisas. 
poderia comer 25
ouriço, cebolas e batatas
de encher os olhos e a boca d'agua



o clássico prato de enguia com maçã 
verde e gergelim
nada é clássico à toa













douglas é o nome de um pinheiro que teve 
suas folhas preparadas em creme para 
acompanhar a couve de bruxelas
peço perdão pela estupidez
ops...
foi mal...


je vous présente la salle





1 comentários:

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Cristiana Beltrão

Esse blog surgiu da necessidade de organizar dicas de restaurantes, paradinhas, bares, mercados e bebidas ao redor do mundo para os amigos. De quebra, acabei contribuindo para jornais e revistas Brasil afora. Espero que gostem.