Quatro dias de Verão em Boston.


Não se pode afirmar nada em quatro dias. Comi e bebi muito bem; meu negócio é restaurante e presto particular atenção. A gente me pareceu simpática, civilizada e atenta. Muitas revindas à mesa pra saber se tudo correu bem, sorrisos pouco afetados, é povo que puxa papo. Vários restaurantes não aceitam reservas. Convém deixar o nome com a hostess esbaforida e voltar em duas horas. Aprendi e me salvou a vida.Têm certa obsessão por filas que ainda não entendi. A cada quinze passos há dezenas se espichando para fora daquela confeitaria que não parece grande coisa ou ainda uma tripa imensa de gente atrás da fatia de pizza murcha que morreria em poucas mordidas na massa dobrada e pingada antes do fim do quarteirão. É como se o povo, preso à camisa de força que o frio empresta por 5 meses do ano, quisesse se fazer notar no Verão.Pães, ótimos pães! Gordinhos, como há gordinhos! Fosse Bostoniana de Inverno, sovava também muita massa e suspendia a academia.
Muitos cegos, que só se fizeram notar graças à estrutura adequada. A cidade é toda adaptada, com rampas nas calçadas, sinais sonoros (“wait! wait!”) e braile pra todo lado. Fiquei feliz.
As vielas de tijolinhos vermelhos servem de estádio encolhido para meninos engolidos por camisas ainda gigantes, em tamanho e fama, dos Red Sox. Nelas, sacodem seus tacos cheios de bolas perdidas. Meio louros, meio ruivos, têm as bochechas fofas, rosadas e sardentas saídas de pôsteres americanos dos anos 50. Começam bonitinhos mas vão desandando a partir dos 20.
Coelhos despudorados – é época de acasalamento – passeiam pela cidade, especialmente em Cambridge. Em outro canto, gansos atravessam a rua, cheios de atitude, em gangues que bicam, pelam e borram toda a praça. Parece uma rebelião silenciosa alimentada pela grama inteligente de Harvard. Eles estão entre nós..
Quatro dias de Verão em Boston.
ONDE COMER:
Começaria na TATTE BAKERY, minha preferida numa cidade conhecida por boas padarias. Vi croissants, pães de longa fermentação, doces, bolos, piruetas de confeitaria arrumadinha, opções generosas de pratos no café da manhã e um bocado de charme. Num dia de fúria, chutei pau e barraca inteira com um herético croque monsieur no croissant. PAMMY´S é restaurante de ambiente. Bonito, inventivo, animado, grande e cheio. As descrições dos pratos são como o nome de minha tia Celeste Margarida: uma combinação dissonante, de bom resultado. Comi um robalo com linguiça sobre fregola de trigo kamut, molho de cynar e pesto de ervilhas. Entendeu? A carta é simpática e o barman, idem.Mais de 900 mil imigrantes franco-canadenses foram parar na Nova Inglaterra. A maior parte de gente da terra, que arava, plantava e tal. Para os descendentes carentes de comida de avó, o CAFÉ DU PAYS, restaurante simpático de bairro tem bons drinks e comida simples e bem feita, como a poutine - batata frita com caldo de carne e queijo, típica do Canadá. Comecei com pão excelente e manteiga fermentada delícia, e segui com folhas de alface, sementes de abóbora e queijo de cabra. Por fim, porco com cerejas e acelga e cobbler de pêssego com agradável toque de tomilho. Fiquei feliz com o Pineau de Charentes, bebida querida e difícil de achar, feita do mosto de uvas e cognac envelhecido em barris de carvalho. “Sabores e técnicas de Japão e Espanha, um síntese das experiências da chef”, diz o site do PAGU. Bem isso, de fato. O espaço é grande e preferi o balcão, com vista pra animação da cozinha. O serviço foi sorridente, senão um tanto distraído, mas voltaria para o menu fixo de almoço (de 21 a 23 dólares, com 3 pratos) e escolheria o que incluísse o Bao (sanduíche de pão de arroz, no vapor) com barriga de porco, amendoins e pepino em picles. Sozinho, já valia a viagem.Quando fizer a obrigatória visita ao Isabella Stewart Gardener Museum, não deixe de almoçar no CAFÉ G, dentro do museu. Nada esperava e encontrei um restaurante adorável, com ingredientes locais, sazonais, cheio de carnes, aves, folhas e legumes em preparações leves e criativas, perfeitas no abafadíssimo Verão bostoniano.Agora, falemos sério. Conchas são obrigatórias na Nova Inglaterra. Se gosta de sabores arredondados e cremosos, vai gostar mais das ostras da Costa Oeste. As da Costa Leste têm sabor crespo e um quê de salmoura. Não são pra todos. É pra gente como eu, que gosta de alvarinho, sauvignon neozelandês, sabores crespos e vibrantes, se é que me entendem. No Oeste são predominantemente kumamoto e kusshis, mais parecidas com as que temos no Brasil: gordas e amanteigadas na boca. Cada lado dos EUA defenderá sua causa com unhas, bocas, línguas e dentes. O argumento em Massachussetts é que as ostras desenvolvem aromas mais complexos porque crescem mais lentamente. Enquanto bairristas brigam, como todas. Provei 6 ostras do Estado e minhas preferidas foram a Island Creek e a Chatham, nesta ordem. Ainda nas conchas, as amêijoas são maravilhosas. As de casca dura são chamadas de quahogs. Quando pequenas, têm o nome de littlenecks ou cherrystones. No NEPTUNE OYSTER, comi deliciosas littlenecks no vapor com vinho branco, guanciale e funcho. É lugar pra deixar o nome na porta às 10:30hs da manhã na lista de espera e voltar, feliz, ao meio dia.


Pammy´s
Peach cobbler do Café du Pays. Pineau de Charentes discretamente acompanha.
Pagu, balcão, alegria.
A indispensável visita ao Isabella Gardener Museum.
Neptune Oyster. Boa carta para acompanhar crustáceaos e conchas.

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Cristiana Beltrão

Esse blog surgiu da necessidade de organizar dicas de restaurantes, paradinhas, bares, mercados e bebidas ao redor do mundo para os amigos. De quebra, acabei contribuindo para jornais e revistas Brasil afora. Espero que gostem.